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Abetarda

A abetarda (Otis tarda) não é uma espécie cinegética e nunca pode ser caçada. Boa parte das perguntas do exame testa exatamente essa frase; as restantes testam a biologia, se é residente, onde se observa, como vivem os bandos. É essa a ordem da página: primeiro o animal, no fim a proteção.

Identificação

É uma das aves mais corpulentas da fauna portuguesa, com 75 a 105 cm de comprimento. É esse porte que a define; o macho transforma ainda por completo o seu aspeto durante a parada nupcial, mas isso fica para a secção da reprodução.

Abetarda macho de pé na erva, com o pescoço cinzento, a faixa castanha no peito e as barbas.
Uma das aves mais corpulentas da fauna portuguesa.Pasztilla aka Attila Terbócs, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Habitat e alimentação

Em Portugal observa-se no Alentejo, nas planícies cerealíferas abertas ou com muito baixa densidade de coberto arbóreo. A condição é a abertura do terreno, e o exame testa-a pela negativa: nem zonas rochosas e declivosas, nem zonas densamente arborizadas; a resposta é sempre a planície cerealífera aberta.

Bando de abetardas numa planície aberta, entre restolho e flores silvestres.
Um bando na planície cerealífera de Castro Verde: é neste terreno aberto que a abetarda vive.Norberto Esteves, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

A alimentação é variada: grãos, rebentos de plantas, insetos e mesmo ratos e lagartixas. O "e mesmo" é do próprio livro, a assinalar a parte inesperada da lista, os pequenos vertebrados.

Comportamento e reprodução

A abetarda é residente em Portugal: cá está todo o ano, não é migradora de inverno nem de verão. E durante a maior parte do ano os machos e as fêmeas mantêm-se normalmente em bandos separados. É deste arrumo por sexos que a época de reprodução parte.

No início da primavera concentram-se nas zonas habituais de reprodução e os machos iniciam as paradas nupciais. A parada transforma por completo o aspeto do macho, por inversão das penas: exibe o branco da cobertura interior em contraste com a superfície castanha avermelhada do peito, cheio de ar, tudo para atrair as fêmeas.

Abetarda macho em parada nupcial na estepe seca, com o pescoço castanho-avermelhado e as penas brancas voltadas para fora.
A parada transforma o macho por inversão das penas: o branco interior vira-se para fora.Vítor Manuel Nascimento de Azevedo, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Fecundada, a fêmea abandona o grupo e isola-se no meio da seara, onde põe dois ou três ovos numa pequena depressão escavada no solo: não há construção de ninho, há um raspado no chão. E as abetardas são extremamente desconfiadas: abandonam o ninho mal este seja perturbado. Não é preciso um tiro para se perder uma postura; basta a perturbação.

Os pintos são completamente dependentes da mãe e, nas primeiras semanas, alimentam-se quase exclusivamente de insetos, em contraste com a dieta variada dos adultos. Conseguem voar ao fim de um mês, mas ficam com as fêmeas até à primavera seguinte: um mês para voar, quase um ano de vida em comum, um par de números fácil de trocar.

Proteção

A abetarda não é uma espécie cinegética e nunca pode ser caçada: não há época que a abra nem edital do ICNF que a autorize. Está extinta na maior parte da Europa e tem sido objeto de proteção nos países onde ainda existe; em Portugal os efetivos são reduzidos, e a ameaça é a destruição do habitat, especialmente devida ao abandono das práticas agrícolas tradicionais. Repara na inversão dentro deste mesmo capítulo: as aves de rapina declinaram com a intensificação da agricultura, a abetarda declina com o abandono das práticas tradicionais; os mecanismos são opostos e não se contradizem, porque em cada caso é o habitat de que a espécie dependia que desaparece. No direito português a proteção tem morada: a abetarda consta do anexo A-I do Decreto-Lei n.º 140/99, com a marca de espécie prioritária.