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Javali

O javali (Sus scrofa) é, nas palavras do manual, "a espécie de caça maior com mais ampla representação no nosso país", com formas e proporções corporais inconfundíveis. Nem sempre foi assim: depois de uma redução numérica séria, há algumas dezenas de anos, a espécie recuperou em força e ocupa hoje uma área considerável do país. Para quem estuda, é também a espécie que mais vocabulário próprio carrega, e esse vocabulário é matéria de exame:

  • Navalhas e amoladeiras.
  • Varas e companhias.
  • Aios e escudeiros.
  • Bácoros, farropos e javalis de vara.

Cada um destes nomes tem lugar certo nesta página.

Javali adulto de perfil, a caminhar num pedregulho junto a uma mata, com a silhueta compacta e a cabeça grande e afunilada bem visíveis.
Membros curtos, sem pescoço aparente, cabeça grande: a silhueta do javali.

Identificação

Um adulto mede 1,25 a 1,70 m de comprimento total e pode alcançar os 140 kg nos machos. A silhueta é compacta e possante: membros relativamente curtos e fortes, ausência aparente de pescoço e uma cabeça grande e afunilada. A pelagem é abundante e áspera, feita de pelos mais ou menos compridos com nome próprio: as cerdas.

O dimorfismo sexual não fica pelo tamanho e pelo peso: entra na própria estrutura óssea. No macho, a cabeça é mais larga e menos afunilada, e os caninos, as presas, atingem grande desenvolvimento, servindo ao animal principalmente como arma.

É nas presas que está o troféu do javali, e os dois nomes têm de sair sem hesitação: as navalhas são os caninos inferiores e as amoladeiras os caninos superiores. O manual compara as presas de um macho jovem, de um macho de idade média e de um macho velho: as presas acompanham a idade do animal.

Cabeça de um javali em grande plano, com a navalha, o canino inferior, bem visível junto ao focinho.
As navalhas, os caninos inferiores, são um dos dois nomes do troféu.

A idade também se lê na pelagem, e aqui a ordem dos nomes é ela própria matéria: um javali passa por três classes, sempre pela mesma sequência.

  1. Bácoros ou listados: até aos 6 meses, com pelagem amarelada e riscas longitudinais castanho-escuras; aos 6 meses mudam para um castanho avermelhado uniforme.
  2. Farropos: dos 6 meses a um ano, com a pelagem a escurecer progressivamente.
  3. Javalis de vara: a partir do momento em que a pelagem ganha o tom cinzento-anegrado.
Dois bácoros de pelagem amarelada com riscas longitudinais castanho-escuras, encostados um ao outro.
Bácoros: pelagem amarelada com riscas, até aos 6 meses.

O questionário do próprio manual pergunta a pelagem de um javali com menos de 6 meses, e a resposta é a primeira linha da lista: amarelada, com riscas longitudinais castanho-escuras.

Habitat e alimentação

O javali é omnívoro, como o porco doméstico. Come frutos, raízes, bolbos, tubérculos, partes aéreas de pequenas plantas, larvas de insetos, pequenos vertebrados, como ratos, láparos e lebrachos, ovos e mesmo cadáveres de outros animais. A preferência marcada vai para as bolotas, as castanhas e os cereais, e é dela que nasce o conflito com a agricultura, dado o risco de prejuízos de monta.

O habitat pede exatamente dois elementos: zonas de abrigo extensas, essencialmente constituídas por matos cerrados, e presença de água. Onde os dois existem, o javali instala-se.

Javali de pelagem escura, molhado, a caminhar num charco de lama.
Zonas de abrigo e presença de água: os dois elementos do habitat.

A abundância recuperada tem um reverso sanitário. O javali é o mais importante portador da peste suína africana, uma doença altamente contagiosa e mortal que já tem provocado autênticas hecatombes nas explorações de porcos domésticos. O enquadramento da doença, e o que ela pede a quem caça, é assunto do capítulo da sanidade.

Comportamento e reprodução

O javali vive em grupos com nome próprio, as varas ou companhias, formados por animais dos dois sexos e de idades variadas. O manual dá a composição em três parcelas:

  • Uma a duas fêmeas adultas, com crias e juvenis do ano anterior.
  • Fêmeas e machos novos (de 2, 3 ou 4 anos).
  • Machos adultos, não solitários.
Fêmea adulta de javali a caminhar no bosque, acompanhada de uma cria mais nova.
Uma fêmea adulta com crias: o núcleo de uma vara.

A terceira parcela merece um reparo: os machos adultos que ali estão são os não solitários. Com a idade, os machos isolam-se progressivamente, até um isolamento completo que só o cio quebra. Enquanto não chegam lá, fazem-se acompanhar de perto por um ou mais machos de 2, 3 ou 4 anos, que têm um dos nomes mais pitorescos do capítulo: aios ou escudeiros.

Os números da reprodução fixam-se em bloco. Ambos os sexos ficam aptos a reproduzir-se aos 8 meses, aproximadamente. O cio não tem época fixa, ao contrário do que sucede na maioria das espécies, e por isso as ninhadas ocorrem em várias alturas do ano; na maior parte dos casos, porém, o cio dá-se nas primeiras semanas de outubro. A gestação dura em média 120 dias e, para parir, a fêmea deixa a vara e procura um local isolado, onde pare entre 2 a 10 crias.

Quando e como se caça

O javali tem a lista de processos mais ampla de todas as espécies: a lei admite seis.

  • A espera.
  • O salto.
  • A aproximação.
  • A batida.
  • A montaria.
  • A lança.

Nos terrenos ordenados, a espécie caça-se durante toda a época venatória, com uma exceção em três processos: o salto, a batida e a montaria correm de outubro a fevereiro; a espera, a aproximação e a lança correm o ano todo.

Nos terrenos não ordenados, o regime aperta por três lados: só batida e montaria, só de outubro a fevereiro e só nos locais e nas condições estabelecidos em edital. As datas e os limites concretos de cada época estão na portaria do calendário venatório e, nos terrenos não ordenados, nos editais. Os quadros completos, espécie a espécie e processo a processo, ficam para o capítulo dos períodos e processos de caça.