Patos
Os patos pertencem à família dos anatídeos, que engloba ainda os cisnes e os gansos. Desses parentes maiores, o livro dá o estatuto de ocorrência de cada um: o cisne-bravo é excecionalmente raro em Portugal; o ganso-bravo-comum visita-nos regularmente no inverno; o ganso-de-faces-negras e o ganso-campestre são francamente acidentais.
Dentro dos patos propriamente ditos, o que interessa ao caçador é arrumar depressa cada ave no seu grupo. A identificação do grupo permite saber se uma espécie pode ser caçada.

Os quatro grupos
A divisão em grupos é uma convenção que o livro apresenta: junta espécies com determinadas afinidades morfológicas, ecológicas e de comportamento. Há quatro grupos com representantes em Portugal: patos de superfície, patos mergulhadores, patos marinhos e patos-gansos. O propósito declarado destas características é ajudar a identificar, no terreno, as espécies que são proibidas e as que se podem caçar.
Os patos de superfície são sete espécies. São patos de tamanho pequeno a médio, com pescoço e patas de tamanho médio e dimorfismo sexual acentuado na maioria das espécies. Têm espelho alar, a mancha de penas de colorido brilhante na asa, aqui geralmente com brilho metálico. Alimentam-se à superfície, de microorganismos em suspensão na água e de plantas do fundo, que arrancam colocando-se com o terço posterior, o caudal, emerso. Para fugir, levantam voo quase na vertical.
Os patos mergulhadores são seis espécies, duas delas acidentais: uma do género Netta e as restantes do género Aythya. Têm pescoço, asas e patas curtas e dimorfismo sexual variável conforme as espécies. Não têm espelho alar: no seu lugar, uma franja alar branca ou pálida. Patinham na água antes de levantar voo e alimentam-se de moluscos, vermes e plantas que obtêm a mergulhar, emergindo praticamente no local onde imergiram.
Quase toda a triagem se decide entre estes dois grupos.
São três pares para fixar: espelho com brilho metálico contra franja branca sem espelho; levantar voo quase na vertical contra patinhar na água; comer à superfície, de terço caudal emerso, contra mergulhar e emergir praticamente no mesmo sítio.
Os patos marinhos compreendem os verdadeiros patos marinhos, do género Melanitta, que praticamente só se encontram ao largo da costa, e os mergansos, do género Mergus. São patos de tamanho médio, de coloração quase sempre escura e alimentação preferencialmente animal: mergulham para capturar os peixes de que se alimentam e emergem a alguns metros do local onde mergulharam, ao contrário dos mergulhadores, que emergem no próprio local.
Dos patos-gansos só há uma espécie em Portugal, o pato-branco (Tadorna tadorna). O grupo junta espécies com semelhanças com os gansos: tamanho médio a grande, pescoço e patas relativamente compridos. A coloração é chamativa e semelhante em ambos os sexos, e o espelho tem reflexos metálicos.
Os patos que a lei lista
Dos quatro grupos, só dois têm espécies na lista legal, e o livro enuncia-o nas palavras da própria lista: apenas se pode caçar uma parte dos patos, as espécies do género Anas, que pertencem aos patos de superfície, e duas espécies do género Aythya, que pertencem aos mergulhadores. São as nove espécies retratadas uma a uma já a seguir.
As palavras da lista pedem uma nota de tradução. A lista trata os sete patos de superfície como um único género, Anas, porque era assim que a taxonomia os classificava quando a lista foi escrita; entretanto quatro deles mudaram de género, e hoje os sete repartem-se por três géneros próximos, Anas, Mareca e Spatula. Nos retratos a seguir encontras o nome atual de cada um. O envelope legal não muda com os nomes: são exatamente as mesmas nove espécies.
Ter lugar na lista legal não é o mesmo que ter época aberta. Em cada época venatória só podem ser caçadas as espécies identificadas na portaria do calendário venatório: nem todas as espécies do envelope legal entram em cada época. Quais entram num dado ano é decisão dessa portaria, não da lista.
Uma pergunta tem resposta estável, e o questionário do próprio manual fá-la: que patos marinhos se podem caçar? Nenhum. Não estão sequer na lista legal das .
Identificação, espécie a espécie
Seguem-se as nove espécies da lista, cada uma com o retrato de macho e de fêmea e o carácter que decide a identificação. Em quase todas, o espelho é a âncora.
- Pato-real (Anas platyrhynchos). Macho: dorso acinzentado, cabeça verde, peito castanho, partes inferiores claras e bico amarelo. Fêmea: acastanhada, de bico alaranjado. O espelho é azul em ambos os sexos.
- Frisada (Mareca strepera). Macho: cor geral castanha acinzentada, com espelho pequeno e branco, orlado em cima por negro e ruivo vivo. Fêmea: espelho semelhante ao do macho, mas com menos ruivo, e ventre branco.
- Marrequinha (Anas crecca). Macho: muito pequeno, cabeça avermelhada com uma zona verde que parte do olho em direção à nuca, linha branca no flanco e espelho verde brilhante. Fêmea: muito pequena, de aspeto geral acastanhado, com espelho semelhante ao do macho.
- Pato-trombeteiro (Spatula clypeata). Macho: cabeça verde, peito branco, mancha castanha nos flancos e no ventre, espelho verde brilhante. Fêmea: cor geral parda, coberturas alares muito claras, espelho verde. O diagnóstico é o bico, espatulado e muito mais desenvolvido que nas outras espécies, em ambos os sexos.
- Marreco (Spatula querquedula). Macho: pequeno, cabeça avermelhada com sobrancelha branca, espelho verde. Fêmea: pequena, semelhante à fêmea da marrequinha, mas com coberturas alares muito claras e espelho verde.
- Arrabio (Anas acuta). Macho: cabeça acastanhada, pescoço branco, dorso cinzento, espelho verde bronze e uma retriz, uma pena da cauda, bastante mais comprida que as outras. Fêmea: aspeto geral acastanhado, espelho menos chamativo, penas caudais mais compridas que as das fêmeas das outras espécies. Em ambos os sexos, o pescoço é comparativamente mais longo e esbelto que o dos outros patos.
- Piadeira (Mareca penelope). Macho: dorso cinzento; pescoço, cabeça e peito cor de tijolo, com a fronte amarela; espelho verde brilhante. Fêmea: aspeto geral castanho tijolo, ventre branco, espelho semelhante ao do macho mas mais apagado.
- Zarro-comum (Aythya ferina). Macho: cabeça e pescoço castanho avermelhado, peito e corpo cinzentos. Fêmea: acastanhada, com um anel cinzento azulado à volta do bico.
- Negrinha, também chamada zarro-negrinha (Aythya fuligula). Macho: dorso negro, flancos brancos e um penacho comprido e fino na cabeça, também preto. Fêmea: acastanhada, com penacho no mesmo tom, muito pequeno.


Três marcas servem de referência: o bico espatulado do pato-trombeteiro, comum aos dois sexos; o espelho azul do pato-real, também comum aos dois sexos; e a fronte amarela do macho da piadeira. E há um par que o próprio livro assinala como confusão: a fêmea do marreco e a fêmea da marrequinha, que se separam pelas coberturas alares muito claras da primeira.

Migração
A exceção sedentária é o pato-real: a sua população é na maior parte sedentária, está presente durante todo o ano e, portanto, cria no nosso país. A lista legal, ainda assim, arruma-o entre as aves migradoras ou parcialmente migradoras; a biologia do próprio livro descreve-o como maioritariamente sedentário, e o questionário de revisão do manual responde "sedentário e parcialmente migrador". Os dois registos convivem, e nenhum anula o outro.
O marreco é fundamentalmente um migrador de passagem: atravessa o nosso território no decurso das migrações. Todas as outras espécies portuguesas de patos são migradoras invernantes, isto é, passam o inverno entre nós. Com algumas variações, as primeiras aves chegam a partir dos fins de setembro e o regresso às áreas de criação, no Norte e no Centro da Europa, faz-se a partir de março.
Habitat e alimentação
Todo o tipo de zonas húmidas, estuários, albufeiras, sapais ou lagoas, é em princípio adequado, com preferências espécie a espécie frequentemente ligadas a aspetos alimentares. Os patos marinhos estão associados à zona litoral.
A alimentação segue os grupos: principalmente de origem vegetal nos patos de superfície, nos mergulhadores e nos patos-gansos, e de origem animal nos patos marinhos, mergansos incluídos. E nem tudo se passa na água: a piadeira pasta em terra, de modo semelhante aos gansos.
Quando e como se caça
A lei admite três processos na caça aos patos: salto, espera e cetraria. E acrescenta-lhes uma particularidade que mais nenhuma espécie ou grupo tem: aos patos são permitidos tanto a negaça como o chamariz. A galinha-d'água e o galeirão, vizinhos destas águas e dos mesmos processos, ficam de fora dessa permissão. A janela que a lei permite vai de agosto a janeiro.
Nos terrenos não ordenados, os meses de abertura e de fecho, agosto, setembro e janeiro, só abrem à espera e à cetraria, e apenas nos locais e nas condições estabelecidos em edital. Uma regra vizinha fica só apontada: o horário alargado da espera aos patos perto dos planos de água é regra estatutária, ensinada no capítulo dos conceitos básicos. As datas e os limites concretos de cada época estão na portaria do calendário venatório e, nos terrenos não ordenados, nos editais.