Processos de caça
Processo de caça é a maneira como se caça: se andas ou se esperas, se a caça te chega levantada por outros ou és tu que a levantas, se entram cães, cavalo ou ave de presa. A lei não deixa isto ao gosto de cada um. Fixa nove processos, dá nome a cada um e define-o, e fora desses nove não há forma legal de caçar.
O processo é o como.
Guarda essa palavra, porque a secção seguinte trata do com quê, que são os meios, e o capítulo já tratou de quem ajuda, que são os auxiliares. São três perguntas diferentes com três listas diferentes, e o exame vive de as trocar.
Os nove processos
A lista que se segue mantém a ordem e os nomes que a própria lei lhes dá, alínea a alínea. Não é uma ordem deste manual nem uma ordem de importância.
- De salto: o caçador desloca-se pelo terreno e levanta ele próprio a caça, com ou sem cães.
- À espera: o caçador aguarda parado, emboscado ou não, com ou sem negaça ou chamariz, e com ou sem cães para cobro.
- De batida: o caçador aguarda a caça que lhe é levantada por batedores, com ou sem cães na caça menor e sem cães na caça maior.
- Com furão: o caçador espera, com recurso a furão, para capturar coelhos-bravos.
- A corricão: a pé ou a cavalo, a caça é levantada e perseguida apenas por cães conduzidos pelo caçador ou por um auxiliar, com ou sem pau.
- De cetraria: caça-se com aves de presa adestradas, com ou sem cães.
- De aproximação: o caçador desloca-se para capturar um determinado exemplar de caça maior.
- De montaria: o caçador aguarda em local previamente definido a caça maior levantada por matilhas de caça maior conduzidas por matilheiros.
- Com lança: caça-se caça maior com lança, com ou sem cavalo e cães.
Olha para o que separa uns dos outros, porque é aí que as perguntas mexem. No salto é o próprio caçador que levanta a caça, e é isso que o distingue da batida e da montaria, onde a caça lhe chega já levantada por outros. À espera o caçador está parado, e os cães, quando os há, estão lá para cobro, ou seja, para recolher a peça, não para a levantar.
A batida tem uma assimetria que é pergunta feita. Na caça menor pode fazer-se com ou sem cães; na caça maior faz-se sem cães. Não é distração da lei nem detalhe de escrita: é a diferença que separa a batida à caça maior da montaria, onde os cães entram, mas em matilhas de caça maior conduzidas por matilheiros.
Há três palavras que distinguem os processos. No corricão, a caça é levantada e perseguida apenas por cães, e o caçador pode ir a pé ou a cavalo, com ou sem pau. Na aproximação, o caçador desloca-se para capturar um determinado exemplar de caça maior. E na montaria são duas as expressões que a lei escolhe: local previamente definido e matilhas de caça maior conduzidas por matilheiros, sendo "matilheiro" o nome legal de quem as conduz.
O furão tem regime próprio
A caça com furão é o quarto processo da lista e o mais condicionado de todos. Serve uma espécie e só uma, o coelho-bravo, e consiste em esperar enquanto o furão faz o trabalho. Se numa pergunta aparecer furão com outra espécie qualquer, a resposta está errada logo aí.
As condições acrescem umas às outras. O processo só é admitido em zonas de caça com plano de ordenamento e exploração cinegética ou plano de gestão aprovado. Quando o objetivo é o ordenamento das populações, é preciso autorização prévia do ICNF. Os furões estão sujeitos a registo anual. E o seu transporte faz-se acompanhado de guia de transporte, que é a exigência que mais vezes falta nos resumos.
Que processos servem cada espécie
A lista dos nove diz que processos existem. Não diz que podes usar qualquer um deles em qualquer caça. Quem faz essa ligação é a parte da lei que trata as espécies uma a uma: para cada espécie cinegética, a lei enumera os processos por que pode ser caçada, e o que lá não estiver não é admitido para aquela espécie.
Os dois extremos ajudam a perceber a mecânica. A galinhola só pode ser caçada de salto, um processo apenas. O javali está no polo oposto, com seis processos admitidos. Entre um caso e outro cabe tudo o resto, e é por isso que decorar a lista dos nove não chega: a pergunta útil é sempre "que processos serve esta espécie?".
Por cima disto opera ainda o calendário venatório. A portaria pode restringir processos, e pode fazê-lo de forma diferente por região e por tipo de terreno, mas move-se sempre dentro do que a lei já fixou: nunca abre a uma espécie um processo que a lei lhe não deu. As tabelas espécie a espécie, com processos e períodos lado a lado, ficam para o capítulo dos períodos e processos venatórios. Aqui o que interessa é o mecanismo: a lista dos nove é geral, a admissão é por espécie.
O salto em terrenos não ordenados
Há uma regra de disciplina do salto que só vale nos terrenos não ordenados. Quando se caça de salto nesses terrenos, os caçadores organizam-se em linhas ou grupos com um máximo de cinco caçadores, e as linhas ficam separadas entre si por 150 metros.
A regra tem uma lógica simples por trás, que é a de manter separadas as pessoas que andam a levantar caça e a disparar na direção em que avançam. Guarda os dois números juntos, cinco e 150, porque é assim que aparecem.
Sabes agora como se caça. Falta com quê, e essa é uma lista diferente, com oito entradas em vez de nove, onde vais reencontrar velhos conhecidos e um deles duas vezes. É o assunto da secção seguinte.