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Perdiz-vermelha

A perdiz-vermelha (Alectoris rufa), também chamada perdiz-comum, é a ave a que o manual do ICNF dá mais atenção: é dela o maior bloco de perguntas do questionário do próprio livro. A razão percebe-se ao ler a página, já que quase tudo nesta espécie se decide em identificação fina: distinguir o macho da fêmea, o adulto do juvenil e, acima de tudo, a perdiz-vermelha da charrela, uma espécie protegida com que se pode cruzar no norte do país.

Identificação

É uma ave de tamanho médio, rondando os 35 a 40 cm de comprimento, e uma excelente andarilha. A plumagem é inconfundível quando se sabe o que procurar: flancos caracteristicamente estriados de castanho e branco, uma linha preta que contorna o branco das faces e desce até ao peito, onde forma um colar negro, e estrias da mesma cor a partir do colar sobre o cinzento do peito. As costas e a parte superior da cabeça têm um tom quente de castanho; o bico e as patas são vermelhos.

Perdiz-vermelha na erva, voltada de frente, com o bico e o anel ocular vermelhos e o colar negro salpicado sobre o peito.
O bico e o anel ocular vermelhos, e a linha preta que contorna o branco da face até formar o colar.

Distinguir o macho da fêmea não é fácil, e o livro põe as condições antes dos critérios: os caracteres seguintes permitem separar os sexos com relativa segurança e "em observação simultânea", isto é, com os dois animais à vista ao mesmo tempo. O macho é normalmente maior e mais pesado, com um peso médio de 483 g contra 395 g da fêmea, e tem a cabeça mais volumosa. Os tarsos do macho são mais compridos e grossos, e os esporões têm base larga e extremidade arredondada; a fêmea tem tarsos mais curtos e delgados e, quando apresenta esporões, estes têm a base estreita e são bicudos. O condicional também conta: nem todas as fêmeas os apresentam.

Separar o adulto do juvenil, a ave com menos de um ano, faz-se pelas rémiges primárias, que o livro define como as dez penas da extremidade da asa. O juvenil inicia a muda no primeiro mês de vida e prolonga-a até outubro e novembro, mas não substitui as duas últimas rémiges: essas duas penas ficam pontiagudas e podem apresentar uma pequena pinta branca na extremidade. O adulto muda todas as rémiges primárias, começando duas ou três semanas antes do juvenil, e as suas duas últimas penas têm a extremidade arredondada, mudadas ou não.

Há uma segunda perdiz em Portugal, e essa não se caça.

A perdiz-cinzenta, ou charrela (Perdix perdix), é muito rara em Portugal, ainda se encontra no norte do país e é uma espécie protegida: importa ao caçador conhecê-la para não a abater. Distingue-se por ser um pouco mais pequena e pelas faces cor de ferrugem, o pescoço cinzento e as patas amareladas; o macho tem no peito uma mancha castanha em forma de ferradura. O questionário do manual reduz a distinção a dois traços: o tamanho mais pequeno e a ferradura no peito.

Habitat e alimentação

Prefere especialmente as zonas de culturas cerealíferas, mas aparece também na periferia de incultos ou matos e, por vezes, em vinhas. A alimentação muda radicalmente com a idade: é essencialmente insetívora no primeiro mês de vida e evolui depois para produtos de origem quase exclusivamente vegetal, como grãos de trigo, cevada e aveia, bolota, folhas, rebentos, bagas, flores e raízes de plantas espontâneas.

Perdiz-vermelha a alimentar-se num prado, de perfil, com os flancos estriados de castanho e branco e as patas vermelhas.
Flancos caracteristicamente estriados de castanho e branco, patas vermelhas: uma excelente andarilha.

Comportamento e reprodução

O calendário reprodutivo corre a duas velocidades, mais cedo no sul e mais tarde no norte. O acasalamento faz-se em janeiro e fevereiro no sul e em fevereiro e março no norte, podendo haver alterações conforme as condições atmosféricas. A postura vai de março a abril no sul e de abril a maio no norte.

O ninho é feito no chão, com o fundo simplesmente coberto de plantas secas, junto a tufos de ervas, debaixo de ramos secos ou junto a linhas de água e caminhos. A postura vai dos 8 aos 23 ovos, com um valor médio de 12, e a incubação só começa depois da postura do último ovo, durando cerca de 23 dias. É conhecida a construção de um segundo ninho, provavelmente quando acontece a destruição do primeiro, e que pode, por vezes, ser incubado pelo macho.

As eclosões concentram-se no fim de maio e em junho, com o máximo na primeira quinzena de junho no sul e nos finais do mês no norte. A perdiz é uma espécie nidífuga: os perdigotos abandonam o ninho logo que nascem e seguem os adultos na procura de alimento.

Durante o verão e até à nova época de acasalamento, as perdizes deslocam-se em bandos. O questionário do próprio manual constrói duas perguntas em cima deste calendário: responde que não há bandos em maio, porque nessa altura as fêmeas ainda estão nos ninhos e o casal ainda está formado, e resume as datas em intervalos nacionais únicos, acasalamento de janeiro a março, postura de março a maio e eclosão em fins de maio e junho, fundindo as colunas de norte e sul que o corpo do livro separa.

Ordenamento da espécie

O livro fecha a espécie com um bloco de gestão, e a régua vem primeiro: numa população bem gerida, por cada ninho de perdiz chegam em média à idade adulta 5 perdigotos. As medidas para lá chegar são recomendações técnicas de quem gere o terreno, não obrigações legais.

  • Pôr à disposição das perdizes alimento, água e abrigo.
  • Cuidar da maneira como são feitas as ceifas.
  • Evitar o abuso de pesticidas.
  • Vigiar os rebanhos e as varas, com atenção aos cães de pastor.
  • Evitar o excesso de predadores, o que não significa a sua eliminação, mas sim o seu controlo.
  • Evitar a deambulação de cães e gatos vadios, que constituem as maiores populações de predadores em Portugal.

O bloco termina com uma taxa de exploração: para o nível da população se manter, não pode abater-se anualmente mais de 50% dos efetivos. Lê este número como o que é, uma norma técnica de gestão, nunca um limite legal de abate. Os limites legais têm outra origem, e é dela que trata o bloco seguinte.

Quando e como se caça

A lei admite três processos para a perdiz-vermelha: salto, batida e cetraria. A espera não está na lista, e a batida carrega uma condição própria: só é possível em zonas de caça. A janela que a lei permite vai de outubro a janeiro.

Fora da época existe um regime especial que é exclusivo da perdiz: a caça com chamariz ou com negaça, de fevereiro a abril. São três condições empilhadas, e as três contam ao mesmo tempo: só nesse período, só em terrenos ordenados e mediante autorização do ICNF. As datas e os limites concretos de cada época estão na portaria do calendário venatório e, nos terrenos não ordenados, nos editais. Os quadros completos, espécie a espécie e processo a processo, ficam para o capítulo dos períodos e processos de caça.