Lesões provocadas por disparo de arma de fogo
As lesões produzidas por armas de fogo devem-se mais frequentemente a balas do que à carga de chumbo, e por isso este tipo de ferimento merece atenção própria. Quando o projétil atinge o organismo e nele penetra, pode atravessá-lo ou ficar retido no corpo.
Esta secção não ensina a socorrer. Descreve o que uma lesão por disparo é por dentro, e existe por uma razão prática: quem percebe o que aconteceu ao tecido deixa de julgar a gravidade pelo buraco que vê.
O orifício de entrada
A forma do orifício de entrada depende da maneira como o projétil atinge o alvo. Se o eixo de penetração for perpendicular à superfície, o orifício tende a decalcar a forma do corte transversal da bala, portanto circular, apresentando uma leve deformação que varia com a direção das fibras elásticas e com a região do corpo atingida, tornando-se ligeiramente oval.
As dimensões são o ponto que interessa reter. O orifício de entrada é habitualmente menor do que o calibre do projétil que o produziu. O disparo a muito curta distância é a exceção e dá origem a um orifício maior do que seria de esperar. E, embora frequentemente o diâmetro da entrada seja menor do que o do orifício de saída, essa comparação exige cautela porque por vezes induz em erro.
A conclusão vale por toda a secção.
O orifício não mede a lesão. Um buraco pequeno pode corresponder a uma destruição interna extensa, e a diferença entre entrada e saída não autoriza nenhuma conclusão em que valha a pena basear uma decisão no local. Quem socorre não tem de interpretar orifícios: tem de reconhecer hemorragia e choque, e ligar 112.
O que acontece por dentro
Ao atravessar o corpo humano, o projétil provoca dois tipos básicos de lesão. O primeiro é o canal de ferida permanente, o ferimento provocado pelo projétil ao romper os tecidos. O segundo é a cavidade temporária, produzida pelo intenso choque do projétil contra a massa líquida dos tecidos.
É este segundo que explica a secção anterior. O tecido é afastado violentamente para fora do trajeto e volta a fechar-se, deixando um canal estreito visível e uma zona de dano bastante mais larga que não se vê. Decompondo o ferimento nos seus componentes:
- Penetração: o tipo de tecido por onde o projétil passa e quais as estruturas que são rompidas ou destruídas.
- Cavidade permanente: o volume de espaço que era ocupado por tecido e que foi destruído pela passagem do projétil, em função da penetração e da área frontal do projétil.
- Cavidade temporária: a expansão da cavidade permanente, distendida pela transferência de energia cinética durante a passagem do projétil.
- Fragmentação: pedaços do projétil ou fragmentos secundários de osso, que podem cortar tecido muscular, vasos e outras estruturas.
Nenhum destes quatro componentes é visível de fora. Todos podem estar a sangrar.
Como um projétil incapacita
Os projéteis de armas de fogo incapacitam um alvo humano de duas maneiras: danificando o sistema nervoso central, ou causando perda maciça de sangue, o chamado choque hipovolémico.
A segunda é o capítulo a fechar-se sobre si próprio. Choque hipovolémico é o choque por redução do volume de sangue circulante, que é o que a secção anterior descreveu a partir dos sinais. Por outras palavras, a resposta a uma ferida de disparo é uma resposta a hemorragia e a choque: reconhecer, comprimir se a hemorragia for externa e não houver corpo estranho encravado, manter a vítima quieta e quente, não dar de comer nem de beber, ligar 112 e ficar até a entregar.
Depois do socorro
Um acidente com arma de fogo não termina quando a ambulância parte. Há duas consequências que este manual trata noutros capítulos e que vale a pena saber que existem. As responsabilidades criminal e contraordenacional, a apreensão da arma e a possibilidade de cassação da licença estão no capítulo dos crimes, contraordenações e sanções. Quem indemniza a vítima, e o seguro obrigatório que responde por isso, está no capítulo da segurança, guarda e transporte. Nenhuma delas é assunto para o local do acidente, e nenhuma delas se resolve sozinha depois.