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Princípios gerais

Primeiros socorros são a primeira ajuda ou assistência dada a uma vítima de acidente ou de doença súbita, de forma a estabilizar a sua situação antes da chegada de pessoal especializado. A definição traz o seu próprio limite: primeiros socorros são o que se faz enquanto se espera, não são tratamento. E são quase sempre feitos com o que há à mão, porque se valem do material e das condições disponíveis no momento.

Os três objetivos

Os primeiros socorros prestados a uma vítima têm três objetivos, e são estes três, nesta forma:

  • Preservar a vida.
  • Evitar o agravamento da situação.
  • Promover o restabelecimento da situação.

Vale a pena olhar para o do meio. Evitar o agravamento é o objetivo que governa tudo o que uma pessoa sem formação faz num acidente, porque é o único dos três que consegue garantir. Preservar a vida depende de muita coisa que não controla; promover o restabelecimento é obra de quem chegar depois. Não agravar depende inteiramente de si. É também a formulação que o exame testa, e a distinção que separa a resposta certa da errada é exatamente essa palavra: evitar o agravamento, nunca agravar.

O SIEM

A sigla SIEM significa Sistema Integrado de Emergência Médica. Repare na palavra do meio, porque é a que o exame troca: Integrado, não Independente. E é uma palavra descritiva, não decorativa. O sistema chama-se integrado porque o seu objetivo é fazer com que organismos separados funcionem como uma única cadeia.

Define-se o SIEM como o conjunto de procedimentos que, executados corretamente e de forma organizada e sistemática, permitem salvar vidas. O seu símbolo é a chamada Cruz da Vida, uma estrela de seis arestas em que cada aresta tem o seu significado, a sua importância e a sua prioridade, por esta ordem:

  1. DeteçãoAlguém dá pelo acidente. Quase sempre outro caçador.
  2. ProteçãoTornar o local seguro antes de lá entrar, a começar pela arma.
  3. AlertaA chamada para o 112.
  4. SocorroO que se faz enquanto os meios não chegam.
  5. TransporteOs meios chegam e levam a vítima.
  6. Unidade de saúdeO destino, e o fim da sua parte.

A ordem é o conteúdo. Não se alerta o que não se detetou, e não se socorre em segurança um local que não foi protegido. Um caçador que chega ao pé de um companheiro ferido está no primeiro elo e passa ao segundo antes de tocar em seja o que for.

O sistema envolve várias estruturas e organizações: o cidadão, as corporações de bombeiros, a Cruz Vermelha Portuguesa, a Polícia de Segurança Pública, a Guarda Nacional Republicana e a Proteção Civil. Note quem vem primeiro na lista. O cidadão é o único elo que já está presente antes de alguém ser chamado, e o meio pelo qual entra no sistema é uma chamada para o 112.

Quem atende o 112 não é um médico.

Vale a pena saber isto antes de precisar. A chamada é atendida por um comando policial, e é a partir daí que se decide o que segue para o local: bombeiros, viatura médica de emergência e reanimação, hospitais e centros de saúde, proteção civil, forças de segurança. Quem liga a contar com uma voz clínica do outro lado perde os primeiros segundos a perceber que não é. Diga onde é, o que aconteceu, quantas vítimas há e se estão conscientes e a respirar, e não desligue antes que lho digam.

Quem socorre

Quem presta socorro deve ser responsável não só na prestação da ajuda, conhecendo as técnicas mais adequadas a cada situação, como também no conhecimento dos mecanismos, meios e organismos que essa prestação envolve. Daí a ordem desta secção: saber a quem se liga faz parte de saber socorrer, e não é um detalhe administrativo colado ao fim.

As qualidades que a fonte enumera são as de alguém observador, desembaraçado, persistente, técnico, prático, improvisador, capaz de manter sangue frio e altruísta. E a forma de lidar com a vítima deve ser calma, delicada e empática, transmitindo confiança, com discernimento e bom senso e com capacidade de avaliar. Não é uma lista de virtudes para decorar: é a descrição de alguém que percebe corretamente os factos antes de agir, que é o oposto do que acontece quando se age em pânico.

Socorrer não é opcional

Circula, inclusive em material de formação, a ideia de que socorrer não constitui um dever, sendo apenas um imperativo da consciência. Convém ser claro: no caso de que trata este capítulo, isso não é o que diz a lei. O Código Penal pune a omissão de auxílio. Quem, em caso de grave necessidade, nomeadamente provocada por acidente, que ponha em perigo a vida, a integridade física ou a liberdade de outra pessoa, deixar de lhe prestar o auxílio necessário ao afastamento do perigo, comete um crime, punido com pena de prisão até um ano ou com multa. E se foi essa mesma pessoa a criar a situação, a pena sobe até dois anos. Um acidente de caça está exatamente dentro desta previsão.

Agora a parte que interessa a quem não tem formação.

A lei diz que o auxílio pode ser prestado por ação pessoal ou promovendo o socorro. As duas contam. Ninguém é obrigado a executar manobras que não sabe fazer, mas toda a gente é obrigada a fazer com que o socorro chegue. Ligar 112 e ficar cumpre o dever. Ir-se embora, não.

E há um limite, que é o mesmo que o plano de ação estabelece a seguir: a omissão não é punível quando exista grave risco para a vida ou para a integridade física de quem deveria socorrer, ou quando, por outro motivo relevante, o auxílio não lhe seja exigível. A lei e o bom senso dizem a mesma coisa. Não se exige de si que se torne a segunda vítima.

O plano de ação

Pela frequência e pela gravidade dos acidentes, o papel de quem socorre é decisivo. A sua responsabilidade resume-se a quatro passos, que em conjunto constituem o plano de ação do socorrista:

  • Avaliar a situação, sem pôr a própria vida em risco e sem aumentar ou manter o risco da vítima.
  • Perceber o que se passa com a vítima, isto é, reconhecer se há uma ameaça imediata à vida.
  • Prestar socorro imediato e adequado, sem esquecer que uma vítima pode ter mais do que uma lesão e que algumas exigem atenção mais urgente do que outras.
  • Providenciar, sem demora, o transporte da vítima para o local que melhor se adequa à situação.

Dois destes passos merecem tradução para quem não tem formação. O segundo não lhe pede um diagnóstico: pede que reconheça que a situação é grave, o que é coisa diferente e ao alcance de qualquer pessoa. O quarto não lhe pede que leve a vítima ao hospital no seu carro: providenciar o transporte faz-se pelo 112, e numa lesão por disparo transportar a vítima por meios próprios é quase sempre a decisão errada.

O primeiro passo é o que mais se esquece.

Avaliar a situação sem pôr a própria vida em risco vem antes de tudo o resto. Num acidente com arma de fogo isto tem um significado muito concreto que a fonte enuncia de forma genérica: no local há uma arma, e provavelmente ninguém sabe em que estado ficou. Antes de se ajoelhar ao lado de alguém, olhe para onde está a arma e para onde aponta. Duas vítimas não é o dobro da ajuda, é metade.

E há um limite claro para o fim. A responsabilidade de quem socorre termina quando a vítima é entregue a uma entidade competente que preste cuidados especializados. Nunca se abandona o local sem que a vítima esteja devidamente entregue, sem ter feito um relato correto da situação a quem chega e sem a certeza de que a sua colaboração já não é necessária. Ficar é parte do socorro.

Por fim, a razão de existir de tudo o que vem a seguir. Os primeiros socorros visam estabilizar ou melhorar uma situação e nunca agravá-la, e por isso é imperativo estabelecer prioridades. Quais são, e por que ordem, é o assunto da secção seguinte.