A atuação do socorrista
Toda e qualquer situação que, pela sua gravidade ou pela extensão da lesão, ponha a vítima em risco de vida exige atenção emergente. São quatro, e a fonte junta-as numa palavra que serve de mnemónica, ACHE, formada pela inicial de cada uma:
- Asfixia
- Choque
- Hemorragia
- Envenenamento
Três destas quatro são exatamente o que um acidente com arma de fogo produz. Abaixo delas ficam as urgências, que se ordenam pela mesma lógica: primeiro os inconscientes, os esmagamentos e as feridas abdominais, depois as fraturas, por fim as feridas pouco profundas. O princípio a reter não é a tabela, é o critério que a organiza. Trata-se primeiro o que mata mais depressa, e o que mais depressa mata raramente é o que mais impressiona à vista. Uma ferida aparatosa num braço espera; uma pessoa calada e pálida, não.
Asfixia
Asfixia é toda a situação em que falta oxigénio e se acumula dióxido de carbono, retido porque as trocas gasosas deixaram de ser possíveis. Pode dever-se a uma quantidade insuficiente de oxigénio no ar inspirado ou a lesão do aparelho respiratório, e traduz-se sempre numa obstrução da via aérea, que pode ser parcial ou total.
Na obstrução parcial a vítima respira com dificuldade e mais depressa do que o normal, tosse, tem dificuldade em falar e mostra uma coloração azulada das extremidades, a que se chama cianose. Na obstrução total a vítima evolui rapidamente para paragem respiratória, com a cianose já estabelecida, associada a inconsciência e a pupilas dilatadas. Não são dois graus do mesmo problema: a parcial é um aviso, a total é uma contagem decrescente.
As causas são muitas: a queda da língua quando a vítima está inconsciente, sacos e almofadas, fluidos na via aérea como expectoração, vómito ou água, a compressão da traqueia ou do tórax, lesão dos pulmões ou da via aérea, ar pobre em oxigénio. Uma delas interessa particularmente a este manual: a perfuração da parede torácica. É a razão pela qual uma ferida no peito é um problema de respiração e não apenas de sangue.
O objetivo de quem socorre é manter ou recuperar a ventilação da vítima, afastando a vítima do perigo ou o perigo da vítima. Na prática, e sem formação: uma tosse forte é uma via aérea que ainda funciona e deve ser encorajada; uma vítima que não consegue tossir, falar nem respirar é uma emergência imediata, ligue 112 antes de mais nada e siga as instruções de quem atender. As manobras de desobstrução e a reanimação existem, são eficazes e aprendem-se com um formador à frente, num curso certificado. Não se aprendem num parágrafo, e é por isso que este manual não os escreve.
Choque
Chama-se choque ao estado de colapso cardiovascular, consequência de uma falência generalizada da circulação periférica e da consequente irrigação insuficiente dos tecidos. Gera uma fraqueza generalizada do corpo, devida à redução brusca do volume de sangue em circulação.
Esta é a frase mais importante do capítulo.
O choque é uma situação grave que pode tornar-se letal mesmo que as lesões sofridas tenham sido devidamente socorridas. Pode conduzir rapidamente à morte se não for corrigida, e as medidas ao alcance de quem socorre são ações de suporte que geralmente mantêm a vítima até chegar ao hospital ou à ajuda especializada. Dito de outro modo: tratar bem a ferida não põe a vítima a salvo, e uma pessoa que parecia estável pode deixar de estar em minutos.
As causas dividem-se em dois grandes grupos, o coração a falhar como bomba e a redução súbita do volume total de sangue circulante. Existem vários tipos de choque, com nomes que pertencem a um curso de medicina e não a este manual; o que interessa aqui é o hemorrágico, que é o que uma lesão por disparo produz. Sinais e sintomas a reconhecer:
- Agitação e ansiedade, ou, pelo contrário, indiferença.
- Pulso rápido e fraco.
- Pele suada, fria e pálida.
- Respiração rápida e superficial.
- Pupilas dilatadas.
- Em último caso, inconsciência.
O que fazer é curto e não exige treino. Elimine a causa se estiver ao seu alcance, acalme a vítima, desaperte a roupa apertada, mantenha-a quieta e mantenha-lhe a temperatura do corpo, e ligue 112 o mais depressa possível. Uma regra vale a pena isolar porque é contraintuitiva e é sempre a mesma: não dê de comer nem de beber, por mais sede que a vítima diga ter. Quanto a posicionar a vítima, siga as indicações de quem atender o 112 e não a memória de algo que leu; mexer numa vítima de disparo para a colocar numa posição tem riscos próprios.
Hemorragia
Dá-se o nome de hemorragia a todas as situações em que ocorre a rotura de um vaso sanguíneo e, em consequência, a saída de sangue do seu percurso normal. Classificam-se de duas maneiras: quanto ao vaso atingido e quanto à origem. Quanto ao vaso, são três e distinguem-se à vista:
- Arterial: saída intermitente, sangue vermelho brilhante.
- Venosa: saída contínua, sangue vermelho escuro.
- Capilar: saída de sangue em pequena quantidade.
Esta distinção não serve para escolher técnicas, serve para medir urgência. Sangue vivo a sair aos jactos, ao ritmo do coração, é a apresentação que mata mais depressa e é a única desta lista que não admite espera.
Quanto à origem, classificam-se em três, e a terceira é a que importa a este manual:
- Externa, sempre visível.
- Interna visível, quando o sangue sai por um orifício natural do corpo.
- Interna invisível, quando o sangue fica retido no interior do corpo.
Uma ferida de disparo que quase não sangra por fora pode ser uma hemorragia interna grave. É por isso que a quantidade de sangue no chão não mede a gravidade da situação, e é por isso que uma vítima com bom aspeto não é uma vítima estável.
Os sinais de uma hemorragia instalam-se progressivamente:
- Dor local ou irradiante.
- Sede.
- Sensação de zumbido e dificuldade progressiva de visão.
- Pulso progressivamente rápido e fraco, ventilação progressivamente rápida e superficial.
- Palidez e arrefecimento do corpo.
- Sonolência e, em último caso, inconsciência.
Compare esta lista com a do choque. São quase a mesma, e não é coincidência: a hemorragia é uma das causas do choque, e o que está a ver numa vítima que arrefece, empalidece e respira depressa é o choque a instalar-se por perda de sangue. Reconhecer um é reconhecer o outro.
A finalidade de quem socorre é limitar ao máximo a saída de sangue, e há uma técnica que uma pessoa sem formação pode e deve fazer: a compressão direta. Aplica-se apenas a hemorragias externas, aquelas em que a zona que sangra está visível. Coloque um penso ou um pano limpo sobre a ferida e faça pressão firme sobre ele. Se o penso ensopar, coloque outro por cima e nunca retire o primeiro. Não use esta técnica se no local existir um corpo estranho encravado ou uma fratura.
Além da compressão direta, as restantes técnicas de controlo de hemorragia pertencem a um curso certificado e a recomendações que são revistas ao longo do tempo. Este manual não as escreve, deliberadamente: uma técnica aprendida de memória a partir de um texto com anos é precisamente o tipo de coisa que corre mal. As ações gerais que se mantêm são as do choque, que a hemorragia acompanha: acalmar, desapertar a roupa, manter a temperatura do corpo, não dar de comer nem de beber, e ligar 112 sem demora.